
Os artigos publicados nesta página não refletem a opinião do Blog (ou do seu autor). Sua divulgação tem o propósito de estimular o debate crítico dos problemas educacionais e de expor as diversas tendências (por vezes, divergentes) do pensamento contemporâneo.
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Revista VEJA. Texto publicado por Cláudio de Moura Castro. 17/12/2008
Pesquisadores da área costumam brincar que a melhor maneira de ter sucesso na escola é escolher cuidadosamente os pais. Essa incoerência não deixa de ser instrutiva, pois há uma inexorável associação entre certos tipos de família e bons resultados na escola. Os filhos de famílias mais educadas e mais ricas tendem a se sair melhor na escola, comparados a outros que não têm essas características.
Mas tal regularidade observada esconde tanto quanto revela. Isso porque filhos de famílias educadas são quase sempre mais prósperos, frequentam escolas melhores, têm maior acesso a bens culturais e recebem mais atenção da família. Desde que nascem são preparados para a escola. Estaríamos diante de um determinismo odioso, só premiando os que já têm mais?
Houve muitas tentativas de deslindar as influências de cada um desses fatores. Mas, uma vez que eles vêm todos embolados, métodos estatísticos complexos são usados para separar o efeito líquido de cada um. Como as resmas de tabelas produzidas pelo computador são de interpretação difícil, ficamos sempre com o travo amargo de um problema mal resolvido.
Mas ficando à espreita, às vezes, a natureza se deixa apanhar mais desnuda, revelando alguns de seus segredos. Uma dessas situações ocorreu em uma pesquisa recente em que participei com o professor José F. Soares, testando alunos dos colégios Pitágoras, de Belo Horizonte. São colégios que atraem uma clientela bem-educada, de classe social homogênea e interessada em que seus filhos recebam a melhor educação possível.
Portanto, o que quer que se observe comparando os alunos dessas escolas não pode ser atribuído a diferenças na qualidade do ensino ou na maior ou menor educação dos pais. É um resultado cristalino.
A pesquisa apresentou ao estudante uma enorme bateria de perguntas acerca do que ele tinha em casa, como livros, revistas, jornais, enciclopédias, computador, ou de atividades como curso de informática, inglês, aula particular, visitas a museus e viagens ao exterior.
Montes de respostas foram remexidos no caldeirão dos modelos estatísticos, na busca dos fatores correlacionados com o bom desempenho escolar. Mas havia muitas surpresas. Nada do que foi citado acima pareceu explicar melhores ou piores resultados escolares, ou porque todos os alunos já tinham o que é realmente importante ou porque tais coisas não são realmente tão fatais no desempenho escolar.
Mas dois fatores apresentaram um impacto brutal nos resultados. O primeiro é a atitude dos pais com respeito ao dever de casa. Quando os pais sistematicamente verificam se os filhos estão fazendo a lição, o rendimento escolar é muito maior. Não é preciso fazer o dever do filho nem mesmo ajudar. O que faz a diferença é o acompanhamento próximo, levando o filho a gastar mais tempo nos estudos.
O segundo fator é a frequência de conversas entre pais e filhos. Os pais e mães que dedicam tempo para conversar com os filhos recebem no fim do mês boletins com notas bem mais altas. A atenção pessoal, a presença e a interação é que diferenciam resultados medíocres de resultados excepcionais. Não precisa ser conversa sobre escola; basta ao filho ter a presença próxima e a interação com os pais.
Esses são resultados alvissareiros. Imagine-se que fossem as viagens ao exterior e os computadores que fizessem a diferença. Seria o peso do dinheiro determinando os resultados escolares. Mas não custa dinheiro ver se a meninada está fazendo seus deveres assiduamente. Tampouco conversar com os filhos é caro. Ou seja, o segredo do sucesso é barato.
Quando trazemos tais resultados para situações escolares mais típicas, é preciso certo cuidado, pois pode parecer que a qualidade da escola, os professores e a forma de ensinar não importam. Ou que outras características da família sejam irrelevantes – o que certamente não é o caso. Mas o que nos demonstra o estudo é que, quando tudo mais é igual, o que faz diferença é a atenção dos pais para a vida escolar e pessoal dos filhos. E esse conselho serve para todos os pais, pobres ou ricos.

Jornal FOLHA DE S. PAULO. Texto publicado por Rosely Sayão. 08/01/09
Na primeira semana de mais um novo ano, a maioria dos pais já se esqueceu dos problemas escolares dos filhos, que lhes renderam tantas preocupações. Vamos considerar: para a classe média, ter filhos na escola privada equivale a trabalho redobrado, muito estresse, gastos de boa parcela do orçamento etc.
Os pais têm se envolvido em demasia com a vida escolar dos filhos. Em parte, devido a pesquisas que mostram que alunos cujas famílias se envolvem com seus estudos aprendem mais. Vamos nos deter neste ponto porque nada é mais antidemocrático do que tal afirmação.
Crianças devem ter as mesmas oportunidades para aprender, independentemente dos costumes familiares. Há pais que têm conhecimento, tempo, paciência etc. para acompanhar os estudos dos filhos. E os que não têm? Para que algumas crianças não fiquem em situação inferior nos estudos, as escolas deveriam ensinar de modo que elas não dependessem de ajuda familiar.
Por falar nisso, o número de pais que levaram o filho a especialistas ou procuraram aulas particulares devido a dificuldades escolares foi enorme. Muitas vezes a própria escola orienta o encaminhamento. Por conta disso, inúmeras crianças foram diagnosticadas como portadoras de dislexia (perturbação da capacidade de ler), discalculia (dificuldade com a matemática), disfasia (má coordenação das palavras) e outras disfunções estranhas. Como se resolvesse algo!
A escola tem colaborado muito para aumentar as preocupações dos pais. Trabalho em grupo, por exemplo, que deve ser feito fora do período de aulas. É um tal de levar e buscar o filho que não tem tamanho, o que exige tempo e trabalho dos pais. Precisa?
A escola também passa aos pais a responsabilidade de resolver a questão das notas baixas, em comportamento e em conteúdo. Ora, esse papel não é da escola junto ao aluno, qualquer que seja sua idade?
O fato é que a vida escolar, com as dificuldades que apresenta, com os desafios que comporta, com as angústias que produz, deveria ser uma responsabilidade assumida pelo próprio aluno. “A escola deveria ser, para a criança, a primeira batalha que ela tem de enfrentar sozinha, sem os pais; deveria estar claro que esse é seu campo de batalha próprio, onde só poderíamos dar-lhe uma ajuda ocasional e irrisória”, diz Natalia Ginsburg. É preciso lembrar que, quanto mais os pais se envolvem com os problemas escolares do filho, menos este os assume como seus, mais os pais se estressam e menos têm paciência no relacionamento com o filho. Por isso, vamos tentar deixar a escola a cargo dos estudantes.
Eles podem resolver sozinhos e a seu modo os problemas, eles merecem a oportunidade de saborear as conquistas e enfrentar os fracassos que experimentarão. Vamos confiar neles e dedicar nosso tempo, paciência, disponibilidade e tudo o mais para construir e manter o eixo afetivo familiar.
Que este seja um bom ano para nossas crianças! E para todos nós.
O primeiro texto, de Claudio de Moura, problematiza a relação classe social x rendimento escolar. Muitos se apoiam na questão social para fazer uma taxionomia entre bons e maus estudantes quando na realidade isso não se comprova na prática, pais presentes que dialogam com seus filhos e participam de sua vida independem de classe social. Oposto a esse conceito, o segundo texto defende que os pais deveriam deixar a responsabilidade nas mãos de seus filhos. Não deveria ser exatamente dos pais essa tarefa? Não será por pensarem assim que muitos pais simplesmente jogam seus filhos nas mãos de outras pessoas para serem educados quando a função e sua? Qual o papel dos pais para com os filhos afinal? Pensemos!